Maria Helena Sleutjes//Hemavathi

 

Diário
21/06/2009 21h59
METADE PÁSSARO - Murilo Mendes
A mulher do fim do mundo
dá de comer às roseiras,
dá de beber às estátuas
dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
chama a luz com um assobio,
faz a virgem virar pedra,
cura a tempestade.

Desvia o curso dos sonhos,
escreve cartas ao rio,
me puxa do sono eterno
para os seus braços que cantam.




Publicado por Maria Helena Sleutjes em 21/06/2009 às 21h59
 
03/06/2009 08h40
VERMELHO - Vanessa da Mata

Gostar de ver você sorrir
Gastar das horas pra te ver dormir
Enquanto o mundo roda em vão
Eu tomo o tempo
O velho gasta solidão
Em meio aos pombos na Praça da Sé
O pôr do Sol invade o chão do apartamento

Vermelhos são seus beijos
Que meigos são seus olhos
Ver que tudo pode retroceder
Que aquele velho pode ser eu
No fundo da alma há solidão
E um frio que suplica um aconchego

Vermelhos são seus beijos
Quase que me queimam
Que meigo são seus olhos
Lânguida face
Seus beijos são vermelhos
Quase que me queimam
Que meigos são seus olhos
Lânguida face

 






Publicado por Maria Helena Sleutjes em 03/06/2009 às 08h40
 
15/05/2009 10h35
SUGESTÃO - Cecília Meireles
                                               [  Para o Professor José Marinho do Nascimento]
 
Sede assim – qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
 
Flor que se cumpre,
sem pergunta.
 
Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.
 
Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.
 
Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.
 
Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.
 
À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.
 
Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
 
Não como o resto dos homens.
 
 
                                           (MAR ABSOLUTO E OUTROS POEMAS)

Publicado por Maria Helena Sleutjes em 15/05/2009 às 10h35
 
08/05/2009 10h35
PARA TI - Mia Couto
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Publicado por Maria Helena Sleutjes em 08/05/2009 às 10h35
 
16/04/2009 13h38
(ouvires do som) eu não sabia de ti - Feliciano de Mira
1.  não poderíamos dizer das letras
     porque estavam partidas ao meio.

     para o T tínhamos que dizer TE.
     mas TE serás tu? ou mais
     uma interrogação incompleta.

     Tá...te...ti.       Um sorriso
      no rosto da menina  -  és tu -

2. então teremos que correr e começar
    ou seja, recomeçar evitando...
    as letras que saem do vento.

Publicado por Maria Helena Sleutjes em 16/04/2009 às 13h38
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