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AS PAIXÕES DO EGO - Humberto Mariotti
Neste livro essencialmente didático e de linguagem clara e objetiva, Humberto Mariotti reúne informações de grande relevância para o entendimento das mudanças que estão ocorrendo com o ser humano, dissecando as estruturas do ego e tentando traduzir a complexidade das interações humanas. Em sua introdução fala sobre a necessidade premente de alterar o modelo mental adotado pela humanidade, demonstrando as limitações do pensamento linear, sua evolução para o pensamento sistêmico para então, desembocar no abrangente, integrador e indagador pensamento complexo e explica estas diferenças dizendo: “Do ponto de vista do pensamento linear, a terra é plana; pela perspectiva do pensamento sistêmico, ela é redonda; por fim, do ângulo do pensamento complexo – ela é ao mesmo tempo plana e redonda.” O pensamento complexo, em seu entendimento, possui cinco saberes fundamentais: saber ver; saber esperar; saber conversar; saber amar e saber abraçar. Ao longo da narrativa vai demonstrando que o ser humano ao exercer estes saberes acaba percebendo que o que é importante não são as partes do sistema em si, mas o modo como elas se inter-relacionam. Com base nas idéias de Morim, entende que o pensamento complexo é uma espécie de “religare”, reunindo domínios tradicionalmente separados e conceitos antagônicos, tais como: ordem e desordem; certeza e incerteza e toma como premissa, a idéia de Pascal de que seria impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, bem como, conhecer o todo sem conhecer as partes em particular e é exatamente este mergulho desafiador nas partes e no todo que Mariotti nos propõe. Entendendo que o ser humano é hoje o produto da separação sujeito-objeto, adestrado para a competitividade que começa com a negação da figura do outro, verifica que em nossa cultura o leigo é o “alienus” por excelência e os que têm o poder de determinar quem é o leigo e quem não é, tem poder de determinar quem é o sujeito e quem é o objeto e é desta forma que a humanidade estaria sendo levada ao individualismo e à ignorância ao invés da interdependência espontânea. Enfatizando que nos falta a percepção da diversidade para a manutenção de uma vida digna, coloca que o homem continua se iludindo e imaginando que ajudar os outros significa dar a eles tudo o que possui. Assim, Mariotti desabafa: “ a opressão leva ao aparecimento de pessoas “diferentes”, ou desviantes – os “outros” esquisitos. Citando Christian Delacampagne, diz que os desviantes são todos aqueles que de algum modo não se enquadram no senso comum de homem normal, pensante e sociável. Nesta ordem de idéias, os desviantes seriam os poetas, a mulher, a criança, o louco e o selvagem. Em suma, todas as pessoas que de alguma forma estejam mais próximas do instintual, do intuitivo, do lúdico, do não-linear. Em outras palavras, Mariotti nos demonstra que em termos de vida mecânica, de consumir e excretar, estamos muito bem – e azar dos que ficam fora. E para finalizar reafirma que os valores fundamentais nascem das relações entre as pessoas e para elas retornam em uma recursividade incessante e criadora não esquecendo do que disse Maturana: “ quanto mais certeza você tem, menos você vê”.
Maria Helena Sleutjes
Publicado em 30/10/2006 às 13h21
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